ESTRUTURAÇÃO DE UM SERVIÇO DE FISIOTERAPIA
5.3 ESPAÇOS TERAPÊUTICOS E SUAS CONSIDERAÇÕES TÉCNICAS

5.3.1  Aspectos gerais da estrutura de um serviço de fisioterapia: o projeto

Projetar, no sentido geral do termo, é apresentar soluções possíveis de serem implementadas a uma necessidade, um resultado desejado e um objetivo. O projetista deverá examiná-las, avaliar as probabilidades de cada uma delas e finalmente inclinar-se por aquela que julgar mais adequada, pressupondo a capacidade de criação para elaborar as soluções possíveis dentro de um determinado contexto; e a capacidade de discernimento para compará-las e solucioná-las. Por essa razão, o projetista deve preocupar-se com sua viabilidade tanto do ponto de vista técnico como do ponto de vista econômico (LIDA, 1990).

Os elementos mais importantes para o êxito nessa espécie de programa são uma equipe habilitada e instalações satisfatórias. Torna-se importante observar o layout detalhado do projeto de ambientação, visando (LIMA, 1997):


• distribuir uniformemente os pontos de iluminação geral;

• prever pontos de iluminação para destaques específicos;

• distribuir uniformemente as tomadas de uso geral;

• prever tomadas sobre bancadas – 0,30 m de altura da bancada;

• localizar tomadas de uso específico a no máximo 1,50 m dos aparelhos de utilização;

• obedecer às convenções (ABNT, 1990) para:

tomada baixa – 0,30 m do piso;

tomada média – 1,30 m do piso;

tomada alta – 2 m do piso;

pé-direito – 2,80 m;

quadro de distribuição – 1,20 m do piso;

largura das portas – 0,90 m.

 

O acesso ao centro deve levar em conta a possibilidade de estacionar, o fluxo de entrada e saída e também a facilidade de encontrar as instalações depois que se chega ao estacionamento. Será lógico instalar o centro em andar térreo para facilitar a entrada dos pacientes.

O fator mais importante na distribuição do espaço em um centro de reabilitação reside numa estimativa realista da dimensão do programa, em função do número de pacientes circulantes na unidade. A cada paciente devem corresponder aproximadamente 10 m2.

O espaço real onde serão feitos os exercícios será menor depois de instalados o equipamento, os armários e as estantes, os bebedouros, as pias, os balcões e os itens de decoração. Se o espaço livre restante for muito pequeno, a colocação de espelhos serve para dar a impressão de ambiente mais amplo. Quando a paisagem vizinha é pitoresca, agradável, convém aproveitá-la ao máximo no projeto, fazendo uso de janelas amplas, as quais devem dar, evidentemente, para a paisagem em questão.

A temperatura deve permanecer dentro dos limites aceitáveis, aproximadamente 27 ºC. A força elétrica normal deverá ser composta por 110 volts e 220 volts. É conveniente a instalação de um número suficiente de tomadas no assoalho, com espaços de 2 a 4 metros. O espaço de trabalho pode ser considerado um campo imaginário, necessário para o organismo realizar os movimentos requeridos. Segundo Redgrove (1979), deve-se acompanhar a estrutura ergonômica para mesa de 74 cm de altura e cadeiras reguláveis entre 47 e 57 cm. O fator que mais influi no dimensionamento do espaço de trabalho diz respeito à boa postura.

 

5.3.1.1 Planta física do serviço de fisioterapia

Quando alguém pretende construir uma casa, uma escola, um hospital, uma clínica de fisioterapia, um ginásio terapêutico etc., surge à necessidade da contratação de um arquiteto para elaborar o projeto, sem o qual não temos parâmetros para determinar o custo da construção e a quantidade de pisos, tijolos, telhas, cimento etc., nem o tempo de execução.

É muito comum as pessoas encontrarem similaridades entre projeto e planta. Cabe esclarecer a diferença entre projeto arquitetônico e planta. Planta é o desenho onde está representado aquilo que se deseja construir. Projeto é uma idéia, resultado da imaginação criadora. A habilidade e o conhecimento serão as bases para equilibrar a arte e as ciências técnicas no projeto.

A representação gráfica de um projeto deverá obedecer à NB-8r (Normas Brasileiras de Desenho Técnico), que trata das convenções de traços, sistemas de representação, cotas e escalas.

Assim como para aprender a ler precisamos aprender as letras e os fonemas, da mesma maneira, para que um fisioterapeuta ou qualquer pessoa que saiba ler uma planta arquitetônica, basicamente se faz o aprendizado do que vem a ser uma escala.

Escala: razão entre a medida de um comprimento representado no desenho e a medida real desse comprimento. Vejamos um exemplo: se um comprimento de 50 mm está desenhado com 10 mm, a escala é de 10 mm/50 mm isto é, de 1/5; significa que as medidas representadas no desenho estão reduzidas em um quinto de seus respectivos valores. Para facilitar a leitura, em diversas escalas, utilizamos o seguinte equipamento:

Escala triangular: régua em forma de prisma triangular contendo em cada uma das faces duas escalas de redução. As escalas de redução mais empregadas são 1/2, 1/5, 1/10, 1/20, 1/25, 1/50, 1/100 e 1/500. O aprendizado do manuseio desse equipamento é fundamental para que o fisioterapeuta saiba mensurar os elementos que compõem uma planta arquitetônica, conforme veremos a seguir.

 

5.3.1.2 Elementos que compõem uma planta arquitetônica

a) Planta baixa – na maioria dos desenhos de projetos arquitetônicos é usada a escala de 1/50. Quando se trata de um projeto em que aparecem poucas paredes e os compartimentos são grandes, pode-se usar a escala de 1/100, detalhando na escala de 1/20 ou 1/25.

b) Corte – plano vertical seccionante. As normas brasileiras recomendam o uso de letras consecutivas para a indicação dos cortes: corte ab, corte cd, e assim por diante. Para a visualização de um corte, o fisioterapeuta deverá ter uma interpretação imaginária espacial da edificação.

c) Planta de cobertura – desenhada em projeção sobre o plano horizontal (como estivéssemos vendo a cobertura do alto de um avião), geralmente na escala de 1/100 ou 1/200. Quando necessitamos de maiores detalhes, usamos a escala de 1/50.

d) Planta de locação – indica a posição da construção dentro do terreno, devendo mostrar muros, portões, árvores existentes ou a plantar, um ponto de referência que desperte interesse, a calçada ou o passeio e, se necessário, as construções vizinhas. A planta de locação serve como ponto de partida para a marcação ou a locação da construção no terreno, geralmente desenhada na escala de 1/100 ou 1/200.

e) Planta de situação – indica a forma e as dimensões do terreno, os lotes e as quadras vizinhas, a orientação (norte), o relevo do terreno, as ruas de acesso à construção, pontos de referência que interessem ao serviço. Em geral, são desenhadas na escala de 1/500, 1/1.000 ou 1/2.000 e devem abranger uma área relativamente grande.

Além dos itens citados, considerados como o mínimo de representação gráfica para a elaboração de uma planta de determinado projeto arquitetônico, podemos acrescentar os seguintes itens:
f) Planta de telhado – projeção sobre o plano horizontal das peças que o compõem – cumeeira, terças, frechais, ripas e tesouras/ pontaletes ou castelos, geralmente nas escalas de 1/50 ou 1/75.

g) Detalhamento – desenvolvido em escalas de ampliação de 1/10, 1/5 e 1/2. Geralmente é necessário para portas, janelas, banheiros, pisos etc.

h) Especificações técnicas – relacionar e codificar em planta os tipos de acabamento e materiais a serem empregados quando da execução da obra.

Procuramos definir de forma sucinta os elementos básicos que fazem parte de um projeto arquitetônico. Esperamos que de agora em diante, vocês, fisioterapeutas, ao abrirem uma planta arquitetônica, saibam lê-la corretamente.

 

5.3.2 A relação entre arquiteto e fisioterapeuta

Também podemos dizer que o projeto arquitetônico é a materialização de um conjunto de informações a respeito de um determinado espaço físico organizado tecnicamente por um arquiteto. A esse conjunto de informações chamamos programa de necessidades, que é de fundamental importância para o bom funcionamento operacional do espaço projetado. É nessa hora que deve haver interação entre os clientes que, no caso em questão, são os fisioterapeutas e o arquiteto.

Cabe aos fisioterapeutas o repasse de informações a respeito do número de ambientes, explicitando a quantidade de pessoas em cada um, bem como a necessidade de equipamentos especiais. A partir daí o arquiteto calculará a área de cada ambiente. É de grande valia que esses profissionais tenham em mente o fluxograma entre os ambientes, estabelecendo a relação de proximidade entre estes, de acordo com a melhor conveniência para um bom desempenho do trabalho que será desenvolvido no futuro. Caberá ao arquiteto organizá-lo de forma compatível com a legislação existente.

A partir desse conjunto de informações, o arquiteto dimensionará as dependências físicas, circulações horizontais e/ ou verticais, acessos e demais particularidades pertinentes ao projeto em questão, respeitando sempre as normas técnicas – por exemplo, na área de saúde deverá ser respeitada a norma estabelecida pelo Ministério da Saúde.

A planta física é uma etapa do planejamento de construção de uma clínica ou serviço de fisioterapia. Em sua elaboração devem fazer parte profissionais de engenharia, arquitetura e fisioterapia, pois o detalhamento de espaços e as considerações técnicas caberão a cada profissional envolvido.

Detalhamentos técnicos e viabilidade de realização de determinados setores deverão passar por consulta a profissionais de notório conhecimento na área. Assim se evitarão erros difíceis de serem corrigidos.

 

5.3.3 O exemplo de um serviço de fisioterapia: setor de fisioterapia respiratória

A assistência respiratória engloba patologias do sistema respiratório caracterizadas por distúrbios da ventilação. A terapêutica adequada envolve, além do tratamento das seqüelas já instaladas, a prevenção, pois tais patologias provocam alterações irreversíveis e inevitáveis no trato respiratório, mesmo com o uso dos fármacos.

Objetiva-se, contudo, reduzir a velocidade de declínio da função pulmonar, uma vez que a doença sistêmica compromete múltiplos órgãos e sistemas e leva à perda progressiva de tolerância ao exercício.

Assim, a Unidade de Assistência Ventilatória acompanha a metodologia da reabilitação pulmonar, definida como um processo que utiliza opções terapêuticas para proporcionar a melhora da qualidade de vida à pacientes com limitações por doença respiratória crônica.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, hoje, as doenças pulmonares obstrutivas crônicas são reconhecidas como importante problema de saúde pública, sendo a sexta causa de morte (CARVALHO, 2000).

Para favorecer a elaboração arquitetônica dessa unidade, torna-se necessário o conhecimento específico das áreas de atuação da fisioterapia respiratória e o conhecimento básico nas áreas afins.
A interação do homem com o trabalho correlaciona-se à análise biomecânica da postura, envolvendo não somente o ambiente físico, mas também a forma como esse trabalho é programado e controlado para produzir os resultados desejados.

Logo, o conceito de ergonomia revela o estudo do relacionamento entre o homem e seu trabalho, equipamento e ambiente, e particularmente a aplicação dos conhecimentos de anatomia, fisiologia e psicologia na solução dos problemas surgidos desse relacionamento (Ergonomics Research Society, Inglaterra).

 

Objetivos

• apresentar uma visão panorâmica e didática de uma Unidade de Assistência Respiratória, obedecendo aos critérios e metodologias de pesquisa no que diz respeito à assistência ventilatória;

• favorecer a assistência aos pacientes, acompanhando a filosofia de um centro de reabilitação pulmonar.

Para tal, faz-se necessária a presença de (CASABURI, 1993):

• material humano qualificado;

• recurso material;

• recurso adequado às práticas assistênciais ventilatórias;

• educação continuada.

 

5.3.3.1 Estrutura física

A planta física de uma Unidade de Assistência Respiratória deverá ser subdividida em:

• sala de avaliação;

• expurgo;

• sala para atendimentos especiais;

• sala para atividades em pediatria;

• salão para atividades cinésicas globais.

 

Sala de avaliação

Deverá ser composta de recursos que favoreçam uma avaliação adequada. É também utilizada para programas educacionais individuais e em grupo, acomodando pelo menos cinco pessoas. A sala deve ser silenciosa, bem iluminada, com decoração agradável e de fácil acesso. Deve-se colocar um quadro magnético e equipamento audiovisual.

Entre os recursos técnicos que deverão compor essa sala, encontra-se o material didático para as atividades educacionais e o material técnico para a execução da avaliação:

• mesa – de apoio;

• maca – para favorecer a avaliação funcional muscular;

• cadeiras – para acomodação na postura sentada;

• sistema de computação – em rede;

• negatoscópio – para avaliação de imagens diagnósticas;

• estetoscópio – para a ausculta pulmonar;

• esfigmomanômetro – para junto ao estetoscópio avaliar a pressão arterial;

• termômetro – para avaliar a temperatura axilar;

• oxímetro de pulso – para avaliação da SatO2 (saturação de oxigênio – %) e fc (freqüência cardíaca – bpm);

• manovacuômetro – para avaliação da Pimáx (Pressão inspiratória máxima – cmH2O) e Pemáx (pressão expiratória máxima – cmH2O);

• medidor do fluxo expiratório máximo (Peak-Flow) – para avaliação dos distúrbios obstrutivos.

 

Expurgo

Esse espaço é destinado à assepsia dos acessórios e ao preparo dos equipamentos. São necessários certos materiais:

• soluções para desinfecção por imersão;

• glutaraldeído a 2% para peças metálicas;

• hipoclorito a 1% para peças plásticas;

• secadores elétricos de ar quente para circuitos e traquéias.

 

Sala para atendimentos especiais

Compreende o apoio às manobras desobstrutivas, que requerem a reserva do paciente em vista da inibição pela prática da tosse diante dos demais pacientes e pela proteção dos mesmos à exposição.

Material para composição da sala:

• cama de drenagem postural – favorecerá o deslocamento das secreções traqueo-brônquicas;

• escarradeira ou cuspideira – favorece a observação do aspecto e da quantidade do muco expelido;

• aspirador portátil nasotraqueal – recurso de higienização pulmonar. Deverá ser acompanhado de material específico, como sonda de aspiração estéril, xilocaína gel, luva estéril e látex conectado ao vácuo;

• suporte de oxigenoterapia – utiliza-se associado à aspiração nasotraqueal ou como recurso suplementar durante as manobras desobstrutivas;

• aerossolterapia simples – favorece a administração medicamentosa;

• dispositivos de pressão – EPAP (Expiratory Positive Airway Pressure): aplicação de pressão positiva expiratória final (PEEP) em pacientes que estejam respirando espontaneamente;

CPAP (Continuous Positive Airway Pressure): essa técnica promove a manutenção de pressão positiva nas vias aéreas, tanto na fase inspiratória como na fase expiratória;

RPPI (Respiração com Pressão Positiva Intermitente): tem como objetivo aumentar periodicamente o volume pulmonar e a capacidade vital;

BIPAP (Bilevel Positive Airway Pressure): recurso de pressão positiva, definido como a pressurização do sistema com dois níveis de pressão que se alternam em um tempo pré-ajustado ou respeitando as fases inspiratórias e expiratórias do ciclo respiratório.

flutter – dispositivo portátil e pessoal que tem a função de aumentar a eliminação de muco dos pulmões;

• inspirômetros de incentivo – tem a finalidade de promover a expansão pulmonar, prevenir a hipoventilação e as atelectasias (fluxo e volume).

 

Sala para atividades em pediatria

Na criança, a fisioterapia respiratória abordará um ser em crescimento e desenvolvimento, que poderá apresentar seqüelas que comprometerão sua vida futura. Logo, faz-se necessária a visão preventiva das atividades terapêuticas, porque as crianças apresentam maior vulnerabilidade e os cuidados devem ser aumentados, com atendimentos individuais personalizados. A decoração da sala deverá acompanhar estímulos visuais e materiais, o que favorecerá a ambientação da criança ao setor. A composição desse setor engloba:

• maca – para favorecer o posicionamento;

• cadeiras – para medidas alternativas de posicionamento;

• coxins – para facilitar as posturas de drenagem;

• incentivadores respiratórios pediátricos;

• vibrador mecânico – para auxiliar na desobstrução brônquica;

• aerossolterapia simples – para administração de fármacos;

• oxigenoterapia – suporte de O2.

 

Salão para atividades cinésicas

Hoje, considera-se como conceito básico de apoio ao doente pulmonar crônico o Centro de Reabilitação Pulmonar. Essa área será destinada a atividades cinésicas globais em grupo. A composição compreende:

• esteiras ergométricas;

• bicicletas ergométricas;

• colchonetes;

• halteres de 0,5 kg a 2,0 kg;

• oxímetro de pulso;

• estetoscópio e esfigmomanômetro;

• rede de apoio à oxigenoterapia.

 

SÍNTESE DA UNIDADE

Nesta unidade, abordamos os aspectos relevantes para a estruturação de um serviço de fisioterapia, possibilitando o entendimento dos passos necessários a sua montagem e funcionamento.