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   desenvolvimento normal da oclusÃo e das funÇÕes no sistema estomatognÁtico e suas alteraÇÕes - uma visÃo odontolÓgica com abordagem fonoaudiolÓgica

1.2 DESENVOLVIMENTO DAS DENTIÇÕES E DA OCLUSÃO.

1.2.1 Dentição Decídua

Para Maciel (2002), é necessário que se conheça a evolução da dentição decídua, pois esta, apesar de temporária, é a base fundamental para o correto desenvolvimento da oclusão.

Abordaremos a seguir todos os aspectos relacionados ao crescimento e desenvolvimento do elemento dentário, desde a sua formação embrionária, erupção, reabsorção, até a suas características oclusais.

 

1.2.1.1 Odontogênese

Os dentes são definidos como “órgãos ou massas duras de tecidos calcificados, de coloração esbranquiçada, situados na cavidade bucal e colocados sobre os maxilares, onde se dispõem em fileiras”. Formados por tecidos mineralizados e altamente especializados, compõem-se de dentina que, pela sua superfície interna, relaciona-se com a polpa (sensibilidade, nutrição e formação), ao passo que, externamente, é revestida pelo esmalte na coroa e pelo cemento na raiz (INTERLANDI, 1994).

Por volta da sétima semana, a lâmina labial do epitélio oral torna-se aparente ao longo do perímetro dos processos maxilar e mandibular. Esta cunha de células epiteliais penetra o tecido conjuntivo subjacente para separar o tecido do futuro rebordo alveolar do lábio. Ao mesmo tempo, aparece uma segunda lâmina, igual a esta lâmina labial que cresce no rebordo alveolar. Esta é a lâmina dentária que, a intervalos regulares, dá origem aos órgãos epiteliais do esmalte. À

medida que as coroas em desenvolvimento se avolumam, e as raízes se alongam, os maxilares aumentam em dimensão ântero-lateral, bem como em altura, para promover espaço aos dentes e processos alveolares em crescimento (MOYERS, 1991).

Cada órgão do esmalte passa, sucessivamente, por três estágios distintos, durante sua evolução até se tornar um dente: broto, casquete e campânula. Durante o desenvolvimento destas, em número de dez para cada arco, a lâmina dental continua a sua proliferação e os órgãos do esmalte dos dentes permanentes (um para cada dente) vão surgindo (também em número de dez para cada arco) ao nível de uma borda livre, que darão origem aos incisivos, caninos e pré-molares da dentição permanente. E em cada extremidade distal da lâmina dental, desenvolvem-se os brotos correspondentes aos órgãos do esmalte dos três molares permanentes de cada hemiarco (FERREIRA, 1996).


Fonte: INTERLAND, 1994.

Fig.02– Esquema para indicar as várias fases de desenvolvimento do incisivo central inferior

A. Formação da lâmina dentária (6 º Semana v.i.u.).

B. Fase de casquete, notando-se diferenciação do órgão do esmalte do dente decíduo (7º semanas de v.i.u.).

C. Fase de campânula. À direita, a extremidade livre da lâmina dentária que dará origem ao órgão do esmalte do dente permanente. O osso alveolar está iniciando sua diferenciação (10º semana v.i.u.).

D. Primeiras deposições de dentina (16 ºsemanas v.i.u.) e oclusão do saco dentário.

E. Diferenciação do incisivo central inferior permanente (nascimento). A coroa do dente decíduo está completa.

F. Inicio de erupção do dente decíduo (6 º meses de idade). A coroa do dente decíduo está praticamente formada com esmalte e dentina.

G. Risólise do dente decíduo e dente permanente em vias de erupção (6 a 7 anos).

H. Erupção dos dentes permanentes (7 a 8 anos de idade).

I. Dentes permanentes em uso, na boca, apresentando uma borda incisal transformada em faceta oclusal pelo desgaste natural.

 

1.2.1.2 A boca do recém-nascido (os rodetes gengivais)

Ao nascimento, os processos alveolares estão cobertos pelos abaulamentos gengivais, que logo se segmentam para indicar os locais de desenvolvimento dentário. As gengivas são firmes, como em uma boca desdentada. Na região anterior, os abaulamentos gengivais geralmente estão separados, ao passo que, na região posterior, eles se tocam, embora ainda não tenha sido estabelecida nenhuma relação de “mordida” ou relação maxilar (WEST, 1925 apud MOYERES, 1991).

A boca edentada da criança apresenta mucosa gengival de cor rosada, firmemente aderida, denominada rodete gengival. Esta fase, desde o nascimento, até o início da erupção dos dentes, também é chamada de período dos rodetes gengivais. A língua do recém-nascido, quando em repouso, posiciona-se entre os rodetes gengivais de tal modo que os tecidos moles preenchem o espaço que futuramente será ocupado pelos dentes (VILLENA; CORRÊA In: CORRÊA, 1998).

Para as autoras, com relação à inserção do freio, acredita-se que ela seja variável, podendo estar vários milímetros acima da crista alveolar (ver figura 2). Porém, no recém-nascido, observa-se com maior freqüência que o freio se insere na crista do rebordo alveolar (ver figura 3). Posteriormente, com a erupção dos incisivos e com o desenvolvimento do osso alveolar, existe ganho em altura e a inserção desloca-se progressivamente para a superfície vestibular do rebordo alveolar, assumindo uma posição mais alta. Em alguns casos, a inserção mantém-se na papila, deixando que as fibras se estabeleçam entre os incisivos. Este tipo de freio é considerado patológico e é conhecido como teto labial persistente.

Fonte: CORRÊA, 1998
Fig.03 - Inserção de freio labial em recém nascido.

Fonte: CORRÊA, 1998
Fig.04 - Inserção de freio labial na crista alveolar.

 

Quanto à conduta a ser tomada, a frenectomia só é indicada em bebês, quando o lábio está fortemente inserido com o freio, dificultando ou impedindo um bom vedamento labial durante a amamentação. Esta conduta também é indicada para os casos de anquiloglossia (língua presa), geralmente originados por freio lingual curto, que une a ponta da língua ao soalho lingual.


Fig.05- Anquiloglossia (língua presa)

 

Atividade 2 – Sobre odontogênese, dentição decídua e os rodetes gengivais

Acesse a ferramenta Atividades, e realize a Atividade 2 .

1.2.1.3 Erupção dos dentes decíduos (cronologia e seqüência)

A erupção, isto é, o movimento do dente em direção ao plano oclusal, começa de forma variável, porém, não antes de se haver iniciado a formação radicular. A época precisa do irrompimento1 de cada dente na boca não é tão importante, a menos que se desvie muito das médias. As variações nas épocas e seqüências de erupção foram registradas em populações diferentes e, provavelmente, há diferenças raciais e socioeconômicas, porém as variações nos métodos utilizados para pesquisa são obscuras e não dispomos ainda de estudos definitivos (MOYERS, 1991). Entretanto, Ferreira (1996) afirma que, a cronologia da erupção está na dependência de muitos fatores como alimentação, grupo étnico, clima, sexo etc.

Ao nascimento, nem os processos alveolares da maxila, nem da mandíbula estão bem desenvolvidos. Ocasionalmente, um dente natal está presente, embora os primeiros dentes decíduos não erupcionem antes dos 6 anos de idade. O dente natal pode ser um supranumerário, formado por uma aberração no desenvolvimento da lâmina dentária, mas geralmente é um incisivo central que faz sua erupção precocemente. Devido à possibilidade deste dente ser perfeitamente normal, ele não deveria ser extraído descuidadamente (PROFFIT; FIELDS, 1995).

Nos 6 meses iniciais de vida pós-natal, o crescimento vertical do processo alveolar é intenso, estabelecendo ganho em altura no terço inferior da face. Os germes dentários passarão a ser envolvidos pela cripta óssea. É interessante perceber que o processo alveolar passa a existir em função da erupção dentária. Podermos perceber que crianças portadoras de displasia ectodérmica apresentam oligodontia (falta de dentes) e o rebordo ósseo alveolar é quase inexistente (MOREIRA In: CORRÊA, 1998).

O primeiro dente a irromper é o incisivo central inferior decíduo aos seis meses e meio. Aos dois anos e meio, aproximadamente, a dentição temporária está completa e em pleno funcionamento. Aos três anos, as raízes de todos os dentes temporários já se acham completas (FERREIRA, 1996).

Quando os incisivos inferiores e superiores decíduos erupcionam, são guiados pelo lábio inferior, lábio superior e pela língua, estabelecendo a guia incisal no encontro com o antagonista (dente do arco oposto). Aparecem os primeiros indícios do processo de mastigação. A língua, agora encerrada no interior da cavidade bucal pelos dentes anteriores, tem sua posição funcional de repouso modificada, há um ganho de dimensão vertical da face e modificam-se as funções musculares.

A regulação neuromuscular da relação maxilar é importante para o desenvolvimento da oclusão decídua. A articulação dentária ocorre seqüencialmente, iniciando-se com a erupção dos incisivos na região anterior. À medida que surgem outros dentes novos, os músculos aprendem a efetuar os movimentos oclusais funcionais necessários. Na dentição decídua, há menos variabilidade nas relações oclusais do que na permanente, já que a oclusão decídua está sendo estabelecida durante períodos mais lábeis de adaptação de desenvolvimento e os dentes são guiados às suas posições oclusais pela matriz funcional dos músculos durante cada crescimento ativo do esqueleto facial (MOYERS, 1991).

A dentição decídua está completa, com vinte dentes bem irrompidos em torno dos três anos de idade, tendo cada grupo de dentes suas funções: os incisivos (dois centrais superiores e dois centrais inferiores/dois laterais superiores e dois laterais inferiores) servem para cortar os alimentos; os caninos (dois superiores e dois inferiores) servem para triturar os alimentos, facilitando a formação do bolo alimentar, a sua deglutição e, conseqüentemente, a digestão da criança (KÓS MIRANDA, 2002).

 

 

Entre três e seis anos, o desenvolvimento dos dentes permanentes no interior dos rebordos alveolares está se processando em ritmo acelerado. Dos cinco aos seis anos, época em que os incisivos temporários são substituídos e os primeiros molares permanentes estão prestes a irromper, existe, nos arcos maxilar e mandibular, maior número de dentes que em qualquer outra época (FERREIRA, 1996).

 


Fig.07 - Radiografia panorâmica de uma criança aos 6 anos de idade.

 

Atividade 3 – Sobre erupção dos dentes decíduos

Acesse a ferramenta Atividades, e realize a Atividade 3 .

1.2.1.4 Características normais e conformação dos arcos decíduos

A maioria dos arcos decíduos é ovóides e apresenta menos variabilidade em sua conformação que os permanentes. Em geral, há uma separação interdentária generalizada na região anterior, a qual, contrariamente à opinião popular, não aumenta de modo significativo após a complementação da dentição decídua. De fato, comprovou-se que o espaçamento interdentário total entre os dentes decíduos diminui continuamente com a idade. Embora o espaçamento seja mais generalizado, não há um padrão de espaçamento comum a todas as dentições decíduas. Alguns espaços mais amplos são encontrados mesiais aos caninos superiores e distais aos caninos inferiores, e são chamados espaços primatas, uma vez que encontram-se particularmente proeminentes nas dentaduras de certos primatas inferiores (MOYERS, 1991).


Fig. 08- Espaços primatas entre incisivo lateral e canino superiores,
e entre canino e primeiro molar decíduo inferiores.

Ao nascimento, os arcos decíduos geralmente são largos para acomodar os incisivos decíduos. Aparentemente, o crescimento do arco mandibular em largura ocorre quase sempre antes dos nove meses de idade (MOYERS, 1991). Após os três anos de idade, até os cinco anos mais ou menos, a cavidade oral da criança se mantém na fase de dentadura decídua completa e parece ficar numa situação de “repouso”, sem a ocorrência de grandes “novidades”. Este repouso, no entanto, só se mantém se não houver interferência de fatores negativos (exemplo: perda de dentes decíduos antes da época ideal, permanência de hábitos orais nocivos de sucção de dedo, chupeta ou mamadeira, após a idade aceitável, acidentes traumáticos com desarranjo na arcada). Caso estes eventos ocorram, dependendo da situação, algumas alterações graves podem se manifestar na cavidade bucal (exemplo: perda de espaço, mordida cruzada, mordida aberta etc.), exigindo, já em idade precoce, tratamentos com aparelhos ortodônticos removíveis ou fixos (KÓS MIRANDA, 2002).

Para aprofundar o conhecimento, consulte o APÊNDICE A - Conhecendo a boca da criança e do adolescente.

Quando os dentes já irromperam e os músculos estão em atividades, o arco formado pelas coroas dos dentes é quase sempre alterado pelas atividades musculares, embora sua forma original não seja determinada pelos músculos (MOYERS, 1991).

 

1.2.1.5 Relações oclusais (planos terminais).

Os dentes temporários dispõem-se do mesmo modo que os permanentes, em arco, sendo que o superior ultrapassa vestibularmente o inferior. Os dentes de leite estão dispostos perpendicularmente, pois os arcos descritos por suas coroas são mais ou menos semelhantes aos descritos pelas raízes (FERREIRA, 1996).

Os incisivos e caninos superiores decíduos podem ter uma dimensão mésio-distal maior dos que a dos inferiores, por isso, os caninos superiores ficam dispostos distalmente em relação aos inferiores. Apesar disto, a face distal dos segundos molares termina em um mesmo plano vertical, devido às dimensões mésio-distais dos molares inferiores serem maiores que as de seus homólogos superiores.


Fig.09 - Aspecto da dentição decídua, observada pela face vestibular, quando em oclusão.

Quando no inicio do século passado, Angle determinou e considerou o primeiro molar permanente como dente “chave de oclusão”, já era evidente a importância daquele dente no desenvolvimento da dentadura decídua para a permanente. Portanto, há de se dar uma atenção especial aos planos terminais da dentição decídua, pois, estes é que guiam os molares permanentes para a sua chave de oclusão.

Segundo Interlandi (1994), na biogênese da oclusão do primeiro molar permanente, devemos considerar a relação distal dos segundos molares decíduos que pode ser de três tipos: em plano reto, com degrau mesial e com degrau distal.



Destes três, o de maior freqüência é o da relação distal em plano reto, seguido do degrau mesial e, finalmente o do degrau distal. No arranjo de oclusão dos primeiros molares permanentes, os dois primeiros tipos de relação distal são favoráveis, ao passo que o degrau distal tende a estabelecer uma relação de classe II entre os primeiros molares permanentes.


Fig. 11- Degrau distal favorecendo uma relação de Classe II
entre os primeiros molares permanentes.


 

 

 

 

 

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