UNIDADE 3
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   INTERTEXTUALIDADE: DIÁLOGO ENTRE TEXTOS - UM EXERCÍCIO DE LEITURA / JOGO COMUNICATIVO

OBJETIVOS DA APRENDIZAGEM

- Rever e ampliar o conceito de intertextualidade;

- Identificar, no estudo da intertextualidade, uma ferramenta eficaz para o trabalho com a leitura e análise de texto, uma vez que pensar os discursos em sua intertextualidade pode revelar a diversidade do pensamento humano;

- Reconhecer, analisar e comparar recursos expressivos da linguagem verbal e da linguagem não verbal, especialmente em textos com temática semelhante;

- Contextualizar a situação discursiva, analisando a intenção do intertexto.


Esta temática também é discutida no Caleidoscópio, bloco vermelho.
Quem não passou pela experiência de estar lendo um texto e defrontar-se com passagens já lidas em outros? De assistir a um filme e perceber que há a presença de algo já lido, já visto, já ouvido? Os textos conversam entre si em um diálogo constante. Esse fenômeno tem a denominação de intertextualidade.

 
Uma das manifestações da língua é a intertextualidade. Do emaranhado das relações humanas, acabam emergindo matizes verbais que refletem identidades sociais [...]. O texto só existe na sociedade e é produto de uma história social e cultural, único em cada contexto, porque marca o diálogo entre os interlocutores que o produzem e entre outros textos que o compõem. (PCN, p. 139.)

Com o trabalho de intertextualidade, nesta Unidade, pretendemos conscientizar Você, futuro professor, de que o espaço da Língua Portuguesa na escola, incluindo os estudos literários e de leitura e produção textual, é garantir o uso ético e estético da linguagem. Pretendemos fazer Você compreender que pela e na linguagem é possível transformar/reiterar o social, o cultural, o pessoal; e levar Você a perceber que pode haver uma diversidade de vozes em um mesmo texto, participando do jogo comunicativo. No mundo globalizado, esses intertextos se inserem, por sua vez em um hipertexto a que a escola deve garantir, ao mesmo tempo, acesso e condição da marca histórica, social e individual de seus alunos.

Portanto, com esse conhecimento, Você será capaz, na sua prática pedagógica, de levar seus futuros alunos a referendar, citar, parafrasear os discursos estabelecidos. Ou negociar sentidos, desmontá-los, sempre criando intertextos novos, num exercício constante de diálogo em que a identidade de cada um se instaure a partir da herança social e cultural comum.

Atividade 1 - Intertextualidade: conhecimento enciclopédico


Você assistiu ao filme A Liga Extraordinária? Trata-se de um filme de ação, de aventuras e de muitos efeitos especiais.



Fig. 133 – Cartaz do filme A Liga Extraordinária.


Mas será que foi só isso que chamou sua atenção no filme? Se foi só isso, você precisaria ser um melhor leitor, que é o que queremos. Sabe por quê? O texto é uma proposta interessante de intertextualidade ou polifonia discursiva. Vamos explicar o que é isso.

O filme mostra a história de vários heróis que no final do século XIX, convocados pela Rainha Vitória, formariam uma legião para combater um perigoso inimigo: um gênio do crime que deseja conquistar o planeta.

O “legal” dessa liga (mas muita gente que viu o filme nem percebeu), dessa legião, é que o autor vai buscar nos clássicos da literatura universal esses “heróis”, esses personagens, e aí acontece à intertextualidade ou a polifonia discursiva: são várias referências a outros textos dentro de um texto. São várias “vozes”, várias discursos dentro de um discurso. Entendeu?

Pode ser um pouquinho complicado, então vamos continuar refletindo sobre isso.

Quem é um bom leitor, quem tem uma “bagagem de informações”, um “repertório de leituras”, com certeza percebeu logo os elementos intertextuais, isto é, quais os textos que fazem parte desse novo texto, que é o roteiro do filme.

Vamos ver quais são esses personagens literários e os clássicos em que “vivem”:



Fig. 134 – O caçador, Allan Quaterman, é do livro As minas do Rei Salomão, de H. Rider Haggard.
 

Fig. 135 – A mulher-vampira, Mina Harker, faz parte do livro Drácula, de Bram Stocker.


Fig. 136 – O médico e o monstro fazem parte do livro clássico Dr. Jekyl e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson.
 

Fig. 137 – O homem invisível é de H. G. Welles, outro clássico lido por milhares de pessoas.



Fig. 138 – O capitão Nemo, o dono do submarino, é o mesmo personagem de 20 mil léguas submarinas, o famoso livro de Júlio Verne.
 

Fig. 139 – O O homem vaidoso, que para não perder a juventude e a beleza faz um pacto com o diabo e torna-se imortal, está no livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.



Fig. 140 – O jovem e infalível atirador é personagem, do bonito livro As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain.


Experimente ler alguns desses clássicos. Você vai adorar!


Além desses, ainda há outros elementos intertextuais: por exemplo, uma referência ao espetáculo de teatro O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux, na máscara usada pelo homem invisível; à obra Os assassinatos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe; e à Moby Dick, de Herman Melville. Sem contar uma inevitável referência a Jack, o estripador.

Aí você pode dizer que só mesmo quem conhecia esses personagens e as obras citadas percebeu a intertextualidade. Quem não tinha esse conhecimento anterior, “passou batido”, não percebeu a polifonia, os vários discursos...

É isso mesmo!

Só com um bom nível de informatividade é que dá para percebermos o intertexto no filme: é uma história (um texto) dialogando com elementos de outras histórias (outros textos).


O resultado desse procedimento chama-se intertextualidade ou polifonia discursiva. E o melhor disso é ser uma prática que convida o leitor a mergulhar numa rede ou malha de textos.

Quem tinha na bagagem de leitura os clássicos citados, um bom grau de informatividade, aproveitou muito mais a trama do filme e tudo que não estava evidente, mas sugerido. Fez uma leitura mais completa desse filme.

Para quem não conhece esses clássicos ou nem ouviu falar, este é apenas mais um filme de muita ação. Mais nada. O que é uma pena...


INTERTEXTUALIDADE é a relação entre dois textos em que um cita o outro.

O poema que vem a seguir é famoso. Leia e veja se você conhece e se sabe de quem é a autoria.


Fig. 141 – Gonçalves Dias, poeta maranhense.

Canção do Exílio

Minha terra tem palmeiras
Onde canta o Sabiá
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar sozinho, à noite.
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’ inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

 

Você leu o poema todo? Lembra-se dele? É um dos poemas mais famosos da Literatura Brasileira. Foi escrito por Gonçalves Dias, em 1843, século XIX, durante o Romantismo.

Com suas preocupações com a terra natal, o sentimento de nacionalidade e a origem da nação, esse poema passou a fazer parte de quase todos os livros escolares. Certas imagens, como o sabiá, a palmeira e alguns versos, como “nosso céu tem mais estrelas”, “não permita Deus que eu morra sem que volte para lá” ficaram presentes no imaginário brasileiro e ajudaram a fixar a idéia de brasilidade: a terra, o sentimento de exílio ou saudade e a língua passam a se confundir com a imagem do país.

Segundo a professora Beatriz de Moraes Vieira, no seu artigo Onde canta o sabiá, texto A Canção do exílio é um dos textos fundadores da nossa cultura e, a partir dele, criaram-se imagens de identidade brasileira e várias releitura.

Nas diversas releituras de Canção do exílio, não só em textos verbais, como também em textos que misturam a linguagem verbal com a visual, você poderá perceber a presença da intertextualidade, da polifonia discursiva.



O texto integral desta obra está disponível em http://bibvirt.futuro.usp.br/textos . Para leitura na tela, no formato HTML ou para download, no formato RTF (compactado), que pode ser lido em editores de texto como o Word.


 

Fig. 142 – Bidu.


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