UNIDADE 3
REFERÊNCIAS
COMO IMPRIMIR
   O VOCÁBULO FORMAL

CompetÊncias

» Reconhecer o vocábulo formal como o objeto descritível da Morfologia.

» Compreender o princípio da comutação para depreender os elementos mórficos do vocábulo formal.

HABILIDADES

» Destacar o vocábulo formal como o objeto descritível da Morfologia.

» Aplicar o princípio da comutação para depreender os elementos mórficos do vocábulo formal.


Esta unidade, “O vocábulo formal“, vai explicitar os princípios da análise mórfica e classificar os diferentes tipos de morfemas existentes em português.

Assim, para esse estudo estão previstas 12h/a de aulas presenciais e 4h/a não-presenciais com textos e atividades que se norteiam com o mesmo objetivo das demais unidades: ampliar o seu conhecimento.

Sucesso!



3.1 DA PALAVRA AO VOCÁBULO FORMAL


Sérgio Sapucahy


Quando nosso objetivo é saber e não apenas conhecer, impõe-se o rigor cientifico. Ora, falamos e escrevemos, hoje e sempre, palavras, do que se conclui que sabemos o que é palavra. Essa tese, entretanto, cai por terra no momento em que, iniciando um estudo sistemático e mais rigoroso da Morfologia do Português, sentimos a necessidade de definir palavra por considerá-la, inicialmente, a matéria prima desse estudo.

Que é palavra?

Se considerarmos a língua escrita, parece não haver dificuldades, visto que somos todos capazes de identificá-la. Em “Gosto de você”, sem pestanejar, afirmamos a existência de três palavras. Essa certeza advém do conhecimento de que, ao escrevermos, separamos as palavras por espaço em branco. Como a todas seqüências intervaladas de letras atribuímos sentidos, chegamos a uma resposta bem razoável para a pergunta proposta: palavra é uma seqüência de letras com sentido.

Tudo muda, porem, se considerarmos a língua oral. Ao falarmos “Gosto de você”, observamos que não coincidem as seqüências de letras com as de fonemas: [‘gכѕto divo’śe]. Em vez de três, como na escrita, são apenas duas as seqüências; não há coincidência entre os intervalos da escrita e os da fala. Sequer podemos dar uma resposta razoável, como fizemos na escrita, porque as seqüências sonoras podem acumular sentidos.

As duas situações mostram que não conseguimos, pelo menos, delimitar palavra. Na escrita e na fala, alcançamos resultados diferentes.

É preciso, portanto, aprofundar a questão, buscando construir nosso saber pelo de outrem.

Muitos estudiosos já se debruçaram sobre a questão. Vejamos o que ensina Lopes (1995, p. 96): “É difícil definir com precisão o conceito da palavra [...]. Isso se dá porque a palavra não é autônoma do ponto de vista semântico, nem do ponto de vista fonético – fonológico, nem do ponto de vista morfossintático.”


• Do ponto de vista fonético – fonológico: já visto neste texto.

• Do ponto de vista morfossintático: Bloomfield (apud LOPES, 1995), lingüista norte – americano, definiu palavra de acordo com o critério da autonomia sintática. Para ele, palavra é uma forma livre mínima capaz de, por si só, constituir enunciado. Assim, em “Menino estuda Português” temos três palavras: Quem estuda? Menino; Faz o quê? Estuda; Estuda o quê? Português.

Já os constituintes menin, o, estud, a, Portug, ês, Bloomfield (Ibid., 1995) chama de formas presas. Observamos que, segundo essa concepção, diversos termos que se articulam com nomes e verbos ficam de fora (artigos, pronomes, preposições...)


• Do ponto de vista semântico: palavras são os termos providos de significação externa, concentrada no radical. Assim, palavras seriam, os nomes (substantivos, adjetivos e advérbios nominais) e os verbos (CAMARA JR., 1968, p. 272). Estreita é a ligação dessa concepção com aquela de Bloomfield (apud LOPES, 1995), entretanto Mattoso (1968) não exclui os artigos, pronomes... considera-os formas dependentes e arrola-os entre as palavras.

• Do ponto de vista de inseparabilidade: palavras são entidades que não se deixam separar, sob a pena de dissolução do conjunto. Assim, por exemplo, são palavras os conjuntos compostos guarda-chuva, arco-íris, pé-de-moleque, maquina de escrever e os complexos Deus nos acuda, um não sei o quê.


Contra esse ponto de vista, pode-se apresentar, em nossa língua as ocorrências eu te amarei / amar-te-ei.

Conclui Edward Lopes que todos os critérios são satisfatórios e opta pela definição de Bernard Pottier: “é palavra qualquer unidade mínima construída e é lexia qualquer unidade lexical memorizada”. (LOPES, 1995, p. 97).

Concluímos nós que o termo palavra é insuficiente, ainda que o continuemos usando para definir a matéria prima da morfologia. É preciso, pois, prosseguir.

Atentando para o sentido literal de morfologia, chegamos a forma, estudo da forma. Podemos, então, estabelecer, de imediato, uma ligação com o que já vimos: forma livre Bloomfield (apud LOPES, 1995), forma presa Bloomfield (Ibid., 1995), forma dependente (CAMARA JR., 1968) – as unidades formais da língua.


• Forma livre – seqüência que, isoladamente, pode funcionar como enunciado.

• Forma presa – seqüências existentes no interior das palavras, ligadas a outras.

• Forma dependente – seqüências externas às livres, funcionam articuladas a estas e não constituem isoladamente enunciados.


E o que geram essas formas?

O vocábulo formal ou morfológico (KOCH; SILVA, 2002, p. 19).

A unidade a que se chega, quando não é possível a divisão em duas ou mais formas livres ou dependentes (CAMARA JR., 1968). E podemos descrever esse vocábulo formal unitário como constituído por:


• Uma forma livre mínima – flor, pé, feliz.

• Uma forma livre mínima e forma (s) presa (s) – florista, pezinho, felizes.

• Somente formas presas – i-leg-í-vel.

• Forma dependente – de, por...

• Forma dependente e forma (s) presa (s) – uma, umas...

Se o vocábulo formal não for unitário, temos:

• Duas formas livres mínimas ou não – flor-de-lis, couve-flor...

A descrição acima mostra que o vocábulo formal pode ser indivisível (mar) ou divisível (mares). O vocábulo formal é uma estrutura mórfica ou morfológica, ou seja, o objeto da morfologia.

• Lexia – Unidade de comportamento

Ex.: Médicos bons; Cuidados médicos.

 

3.2 A ESTRUTURA MÓRFICA E SEUS CONSTITUINTES


Sergio Sapucahy


Sem desprezar nosso conhecimento acerca do termo palavra, privilegiamos a expressão “vocábulo formal” neste estudo em que se coloca um olhar mais atento sobre a construção de palavras como objetivo a alcançar.

Assim, partindo do vocábulo formal, unitário ou não, chegamos à abstração da estrutura mórfica, esta, sim, um conhecimento inerente a todos os usuários, mesmo que latente para a maioria.

Comprova-se, facilmente, essa afirmação quando se ouve “gatoso” na linguagem juvenil, “malufou” na crônica política diária, “sem-terra”, “sem-teto” e similares. Nesses exemplos, não dicionarizados, percebe-se a presença da estrutura mórfica e de seus constituintes na criação de palavras novas que dêem conta de eventuais necessidades semânticas.

Descrever essa estrutura, conhecer seus constituintes, observar sua constante ativação pelos falantes faz parte do trabalho do professor de linguagem em qualquer segmento de atuação, do pré-escolar à universidade. Isso significa pensar na língua como um sistema, uma rede de associações ou estrutura construída por meio de correlações e oposições, propriedades presentes em todas as realizações da linguagem verbal.

Por exemplo, em “sem-terra”, preposição criando a expectativa do substantivo; a oposição latente entre sem e com; a composição em oposição à derivação; a hifenização, sinalizando a unidade significativa, em oposição à significação das partes; a correlação metonímica entre a parte e o todo; a subordinação em oposição à coordenação.

Assim, a estrutura do vocabulário formal é, inicialmente, a combinação entre as formas livres, presas ou dependentes. Mas é, sobretudo, a possibilidade de combinações entre unidade mínimas significativas que, com existência autônoma ou não, formam os vocábulos.

Essa idéia de combinação que nos remete à sintaxe, remete-nos, também, à morfologia, aliás, partes da gramática sempre de braços dados e cuja separação se justifica apenas por razões didáticas.

É a analise do vocábulo que nos permite chegar tanto às formas livres, presas ou dependentes como às unidades mínimas significativas que preenchem a estrutura do vocábulo formal. É do lingüista francês André Martinet (apud KOCH; SILVA, 2002, p. 11) a constatação de que a linguagem humana se organiza por meio de uma dupla articulação. Na primeira articulação, todo enunciado divide-se linearmente em unidades significativas: frases, vocábulos e morfemas, nessa seqüência, a unidade mínima significativa é o morfema. Na segunda articulação, cada morfema se divide em unidades menores desprovidas de significado O fim dessa divisão revela a unidade mínima sonora do vocábulo, o fonema, cujo caráter distintivo realiza o prodígio de, sendo um conjunto finito, limita a pouco sons (7 vogais em posição tônica, 2 semivogais e – consoantes em português), produz um conjunto “infinito” de vocábulos.

Tem-se, portanto, no morfema o constituinte unitário da estrutura mórfica dos vocábulos. É o reconhecimento da existência dele que possibilita à jovem acrescentar “gatoso” ao repertório oficial: carinhoso, orgulhoso, vaidoso, rigoroso, teimoso... Ou seja, a jovem ativou o morfema “oso” para expressar sua admiração pela aparência de seu namorado. Do mesmo modo, a imprensa ativou determinados morfemas para, pejorativamente, criar o verbo malufar, com o sentido de passar para o lado do político Paulo Maluf.

A esses morfemas chega-se por meio de uma operação chamada comutação. Como o nome informa, comutar é trocar. Para realizá-la, troca-se um segmento do plano da expressão (significante) e tem-se, como resultado, uma alteração no plano do conteúdo (significado).

Por exemplo:

- gatoso – o - gatoso – gat(o)
- gatosa – a - manhosa – manh(a)

Como se vê, o primeiro par revela a existência de unidades identificadoras do gênero da palavra, uma categoria gramatical. O segundo par, unidades indicadoras da existência de um ser (gat – gato, gatinho, gatões, e de um atributo dos seres manh - manha). No primeiro par, os elementos depreendidos têm seu significado vinculado ao mundo das relações internas à palavra; no segundo par, ao das relações externas à palavra. Daí a grande divisão dos morfemas conforme a nomenclatura adotada por Câmara Jr: morfemas lexicais e morfemas gramaticais.

Outras nomenclaturas são adotadas pelos lingüistas brasileiros conforme as correntes a que se vinculam, como, por exemplo:

- Morfema Morfema - gramema
- Semantema   - monema

 

1/2