UNIDADE 2
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
COMO IMPRIMIR
   FUNDAMENTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS DAS CIÊNCIAS SOCIAIS E SUA INFLUÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DA METODOLOGIA DO SERVIÇO SOCIAL

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2.1.3 Fenomenologia


Assim como o positivismo, esta é uma corrente que se inscreve na grande área filosófica do idealismo, mais especificamente do idealismo subjetivo. Esta corrente foi a fonte alimentadora do existencialismo de Sartre e de Heidegger, popularizadas no pós-guerra.

Origem: nasce com o pensamento de Edmund Hussel (1859 – 1938), que foi influenciado por pensadores como Platão, Lieibnitz, Descartes e Brentano. A crítica ao positivismo que aparta a filosofia da ciência – matando a posibilidade da metafísica e ao psicologismo – motivou Hussel a propor um novo método científico de conhecimento. Segundo palavras suas, busca transformar a filosofia em ciência rigorosa, nível este que só seria alcançado por uma descrição rigorosa das essências da realidade.

Conceitos:


• A Fenomenologia visa “retornar as coisas mesmas”, começando por questionar o próprio conhecimento.

• Fenomenologicamente o conhecimento é descritivo, não-explicativo, e nem analítico. Para alcançá-lo, faz-se necessário encontrar as categorias puras do pensamento científico que não serão atingidas senão pela via do “mundo vivido”, já que toda ciência é construída sobre o mundo vivido ou experiência do mundo, da qual a ciência é apenas expressão derivada.

• Estas categorias puras do conhecimento científico na fenomenologia Husseliana são conhecidas como essências ou mundo das essências, que se distingue do mundo psicológico individual por ser passível de ser acessada universalmente por qualquer sujeito que a queira descrever rigorosamente. Assim, a fenomenologia seria o estudo das essências.

O método fenomenológico visa desvelar as essências ocultas no mundo vivido. Para tanto, o caminho metodológico único é o que Hussel denominou de redução fenomenológica, na qual o fenômeno se apresenta a consciência intencional do sujeito despido dos elementos pessoais e culturais, sem perder sua facticidade. Este procedimento metodológico implica em colocar o mundo entre parênteses (em suspensão). A epoché, como também é conhecido, este passo metodológico, permite ao fenomenólogo a descrição do dado puro, que não se confunde com o dado empírico de outras abordagens, mas o dado é a consciência intencional perante o objeto.

• A consciência é sempre consciência de algo; ela é sempre intencional, está dirigida para algo determinado. E a intuição que a consciência intencional possui diante do objeto que se mostra a ela. Está como objetividade da essência, aí sim se revela cientificamente a essência das coisas, o fenômeno. Assim, o desvelamento das essências, diferentemente de outros métodos, dá-se pela intuitivamente mediante a realização dos significados da consciência.

• Depois da epoché, que revela a essência para a consciência intencional, vem a redução transcendental, na qual questiona a própria existência da consciência, para que reste a pureza intencional, chegando-se desta forma a almejada consciência pura.

• O problema da verdade científica, ou da universalidade do conhecimento na fenomenologia se põe em diferentes aspectos comparativamente aos demais métodos investigativos de base analítica, porque a revelação das essências para sujeitos individuais escapa ao solipsismo por meio da intersubjetividade, que consiste na forma por meio da qual os sujeitos (ou sujeito geral) podem aceder a revelação do mundo das essências. Assim, a fenomenologia não se dedica a revelações particulares ou ao conhecimento esotérico, mas ao universal, o que é válido para todos os sujeitos.

Evolução: da mesma maneira que ocorreu com outras escolas de pensamento, também dentro da Fenomenologia se distinguem grupos de pensadores mais ou menos próximos de seu fundador. Grupos se destacaram principalmente em França com Sartre, Merleau-Ponty e Ricoer; na Alemanha além do próprio Hussel e de seus seguidores que defendiam a Fenomenologia pura, encontram-se também Heidegger e Max Sheler com sua Fenomenologia das Essências. Na América do Norte foi onde surgiu a associação entre fenomenologia e sociologia, onde se destaca o pensamento de Alfred Shultz.

 

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1.1.3 Marxismo

Origem e evolução: nasce de um original entre cruzamento de fontes de conhecimento operado por Karl Marx (1818-1883), contando com a colaboração de Frederic Engels (1820-1895), quando construiu uma teoria social cujas fontes foram a crítica operada sobre economia política clássica; sobre a dialética hegeliana e sobre o socialismo utópico francês.

Apropriando-se de conceitos e ao mesmo tempo ultrapassando-os construiu uma crítica ao capitalismo em processo de amadurecimento, crítica essa que evoluiu desde um ponto de vista da democracia radial da sua juventude, como é o caso da obra Manuscritos Econômicos-Filosóficos (1844) num continum até as obras da maturidade quando faz uma rigorosa análise econômica da sociedade capitalista em O Capital. Além da análise histórico-social enfeixada em suas obras, deixou um legado político ao denunciar a parcialidade da ciência oficial e liderar um movimento político socialista através da
Internacional Socialista, cujo conhecido lema era “Proletário do mundo todo uni-vos!”, inscrito no Manifesto Comunista.

Colocando em prática o que teoricamente sugeriu na crítica desferida contra um modo de ser intelectual ou militante que se bastavam na interpretação do mundo, os idealistas alemães, ou aos socialistas utópicos franceses, expresso na lapidar frase das teses contra Fuerbach: “já não basta interpretar o mundo, necessitava-se transformá-lo”. Inaugurando assim, um novo paradigma na relação entre ciência, política e ideologia e rompendo com a neutralidade axiológica apregoada pelo conservantismo positivista.

No século XX, o marxismo assumiu – dependendo do contexto histórico e das derivações dos conflitos entre os próprios marxistas – denominações como Materialismo histórico – Materialismo dialético (sob a influência da corrente marxista-leninista, depois da Terceira Internacional no socialismo soviético); Filosofia da Práxis (sob influência do legado de Gramsci); Ontologia do Ser Social (resultantes das obras da maturidade de Luckács), para ficar nas mais conhecidas.

A crise que se abateu sobre partidos, sindicatos, intelectuais e militantes inspirados no marxismo após a queda da URSS e a derrubada do muro de Berlim no final do século passado, produziu uma saudável onda de revisões nas hostes marxistas, levando de roldão boa parte do ortodoxismo que engessou não poucos e bem intencionados adeptos de “algum” dos vários marxismos. Muito do dogmatismo positivista e evolucionista que se abrigou sob a marca da tradição marxista ou se reviu ou pagou o preço da esquisitice política e/ou científica.

Nos dias de hoje, alguns entusiasmados conservadores e liberais se agradam tratando ao legado marxiano como um “cachorro morto”. No entanto, se alguma razão eles possuem é quanto à morte da ortodoxia e do dogmatismo das previsões messiânicas quanto à evolução do socialismo e do comunismo, no mundo, que foram desmentidas pela história. Mas, quanto a agudeza do método de investigação da realidade – a dialética materialista – e quanto as análises estruturais da ordem social capitalistas, estas inegavelmente seguem validadas pelos próprio critério de realidade, já que as contradições fundamentais por ele desvendadas e combatidas, mesmo mais de um século depois, seguem existindo transvestidas de novas denominações, mas que de fato refletem a velha estrutura social desigual, baseada na acumulação capitalista da qual, ontem como hoje, mantém afastados da condição mínima de dignidade humana enormes contigentes populacionais.

Conceitos básicos: aqui mais nos interessa enfatizar a base metodológica do marxismo, mesmo que saibamos que ela é indissociável de sua base teórico-política. A dialética proposta por Marx, depois de ultrapassado o idealismo hegeliano, foi a base sobre a qual se ergueu todo edifício da sua ontologia. São estas bases que a seguir sumariamos.


• A realidade social se desenvolve independentemente da vontade humana; e a consciência humana é determinada pelas relações materiais de produção a que se encontra submetida, e não o contrário como prega o idealismo.

• A realidade é concebida como uma totalidade social, articulada e orgânica; realidade esta que é toda processualidade e dinamismo, impulsionados por forças contraditórias que, ora buscam a estabilidade, ora a desagregação da ordem social. A totalidade é um complexo dinâmico que se estrutura a base de outros complexos menores.

• Ou seja, o conflito social não é uma disfunção como querem os positivistas e seus herdeiros, mas o motor das transformações sociais.

• A totalidade social não se mostra na imediaticidade do ser social, mas se oculta na aparência dos fatos. O conhecimento da realidade exige que a enganosa aparência, que em si mesma contém parte da verdade, seja dissolvida, por meio do conhecimento das mediações.

• As mediações dão consistência à totalidade, porque são as responsáveis pela articulação entre as partes e o todo, dando sentido histórico e estrutural às análises sociais dos fenômenos sociais. É justamente o desconhecimento dos sistemas de mediações que leva as análises empiristas e atomistas a postularem que os dados da realidade em si contêm a verdade isoladamente.

• No processo de conhecimento desta corrente de pensamento, a relação sujeito-objeto é entendida com uma relação dialética, na qual o conhecimento não reside em nenhum deles exclusivamente, senão na sua infindável, já que o sujeito do conhecimento é ao mesmo tempo objeto deste mesmo conhecimento. São permanentes a relação entre as dimensões subjetivas e objetivas do processo epistemológico, sendo ilegítimas, assim, a dicotomia sujeito-objeto implícita no dogma da neutralidade científica positivista.

• A práxis é o conceito que exprime a forma marxista de entender-se a relação teoria-prática, na qual ambas dimensões compõe o áspero caminho que a razão necessita percorrer para conhecer o real. O critério definitivo, mas não exclusivo, de verdade é a prática social.

• A alma da dialética reside na conhecida relação entre TESE-ANTÍTESE-SÍNTESE. A antítese responde pelo pólo negador da realidade aparente como expressão da verdade, possibilitando um permanente redescobrir do próprio movimento do objeto pela razão. Daí nasce um conceito central deste método que é a superação (aufheben), que significa o produto do movimento da realidade dinâmica em que o velho e o novo estão em permanente tensão, criando novas teses e suas negações.

• Daí nasce o adjetivo ao materialismo do marxismo: histórico. Porque só é possível uma aproximação ao movimento do real compreendendo suas leis e a trajetória que vem se construindo. Esta trajetória reconstruída racionalmente é a história. Por isso se diz que este é um método histórico-estrutural, por estar atento a evolução do ser social. O cuidado que aqui se deve ter é não confundir leis sociais que são históricas e diferentes das leis naturais; com a equalização positivista entre o ser social e o ser natural regidos por leis da mesma natureza.

• Coerente com isto emerge um outro conceito importante na visão da ontologia marxista, o critério de verdade, que nesta visão é necessariamente a prática social. Assim é posto, justamente, para se escapar à arbitrariedade ideológica do sujeito.

 

2.2 AS CONSTRUÇÕES TEÓRICO-METODOLÓGICAS EM SERVIÇO SOCIAL

2.2.1 A teoria e a metodologia na história do Serviço Social

O Serviço Social ao longo de sua história produziu diferentes formas de relacionar-se com o par teoria-metodologia, o que veio atestando seu crescente amadurecimento e produtividade científica. Netto (1989, p. 41) mostra que a evolução passou por duas grandes etapas, nesta interlocução teórico-metodológica: a primeira é uma etapa mais endógena da profissão, em que a interferência com as teorias sociais teve baixa intensidade e que as construções e modelos de intervenção profissional estiveram mais ancorados à sistematização das práticas sob inspiração filosófica e psicologista. A segunda, já apresenta um claro marco de influência das ciências sociais, com viéses funcionalistas, estruturalistas, sistêmico e marxista. Daí aparecem formulações teórico-metodológicas bem mais sofisticadas que ocorrem concomitantemente com a própria expansão do mercado de trabalho da profissão no país. Esta etapa, corresponde as três últimas décadas da profissão. O quadro a seguir retrata esquematicamente estas etapas.

Quadro 2 – Etapas das matrizes metodológicas no Serviço Social brasileiro

O quadro anterior, mesmo que esquematicamente, revela uma importante dinâmica no diálogo da profissão com as ciências sociais, no qual o enriquecimento teórico-metodológico é flagrante, sem com isto querer dizer que atingimos o ápice, simplesmente estamos caminhando.

O estudo tanto de cada vertente teórico-metodológica, quanto de sua respectiva influência no Serviço Social será objeto de aprofundamento posterior.

Agora, veremos como as vertentes teórico-metodológicas foram sendo incorporadas na profissão, e, o faremos retomando o quadro anterior que esquematiza o diálogo entre as vertentes e a profissão que segundo Yazbek (2000, p. 52) se apresenta da seguinte maneira:

  1. SERVIÇO SOCIAL FUNCIONALISTA: CASO, GRUPO E COMUNIDADE.

2. SERVIÇO SOCIAL FENOMENOLÓGICO: A METODOLOGIA DIALÓGICA.

3. SERVIÇO SOCIAL E O MARXISMO: DO MÉTODO BH A METODOLOGIA DA ARTICULAÇÃO.

 

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Atividade 1 – Fichamento


SÍNTESE DA UNIDADE

Estudamos, os principais conceitos das correntes teórico- metodológicas que mais influenciaram o Serviço Social em sua trajetória histórica: positivismo, fenomenologia e marxismo. E também conhecemos que construções teórico-metodológicas a profissão foi capaz de realizar com base nestes aportes. Com isso pudemos ter uma noção ampla de como vêm evoluindo, em complexidade e profundidade, os fundamentos teórico-metodológicos da profissão.

 

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